A maturidade de um autor

Luiz Carlos Lacerda - Cineasta - Foto: Daniel Guilhamet

Acompanho a trajetória do cineasta Zeca Pires desde seu primeiro curta, a antológica adaptação para o cinema do poema A morte do leiteiro, de Carlos Drummond de Andrade.
Assistindo seu novo longa metragem A ANTROPÓLOGA, não me surpreendi com a qualidade técnica que marca seu filmes, mas com a maturidade estilística, a elegância da sua mis-en-scene, a mescla de cenas que denotam a sua formação de documentarista com as cenas de ficção elaboradas com um cuidado artesanal e artístico digna de um cineasta na plenitude e no domínio de uma narrativa pessoal que podemos chamar de estilo, e que evoca os bons momentos de um cinema que veio se incorporando nela através da percepção e sensibilidade que caracteriza os grandes artistas.
Equilibrando o compromisso com a cultura dos ilhéus e a atmosfera dos melhores filmes de suspense, A ANTROPÓLOGA consegue prender a atenção de quem o assiste com a mesma intensidade que marca o cinema como espetáculo, derrubando o olhar analítico e distanciado de um público que assiste aos filmes sem o envolvimento com a narrativa, fazendo-nos viver os conflitos, os temores e a curiosidade em que se
transforma a pesquisa da protagonista com uma identificação que remonta às razões que permeiam qualquer dramaturgia de qualidade: aonde vai nos levar essa estória?
O equilíbrio da seleção de atores, discretamente preparados pelo experiente Celso Nunes, contribuem para a veracidade do argumento e a cumplicidade com o seu desfecho. Destacam-se as atuações de Larissa Bracher (numa perfeita composição de uma açoriana com impecável sotaque); a menina (Rafaela Rocha de Barcelos) e o pescador Pedro, interpretado fielmente pelo talentoso Eduardo Bolina.
Diga-se de passagem que a maioria dessas tentativas de atores interpretando personagens de outra nacionalidade ou condição social (como é o caso de Bracher e Bolina), invariavelmente caem num tom caricatural que comprometem a cumplicidade necessária entre o público e a estória que se está contando.
Aqui, não, A ANTROPÓLOGA é uma lição de sutileza na direção de atores no que diz respeito à construção da linha de personagem de cada um deles.
A idéia de confrontar o arcaico (representado pela parte documental onde os pescadores falam de suas crenças e de sua cultura) com o contemporâneo (o grupo dos “góticos”) resulta não numa pororoca equivocada e perigosa, mas no conluio que transcende até mesmo as intenções do roteiro.
Outros pontos de excelência, além da primorosa montagem do mestre Giba Assis Brasil, são a fotografia “platinum” de Charles Cesconetto que emoldura a narrativa, mas sempre à seu serviço, criando, ela própria , uma atmosfera de expectativa, deslumbramento e magia; com momentos de maestria que ficarão marcados na memória das imagens realizadas pelo cinema brasileiro; e a discreta e funcional trilha musical, tb mesclada com as cantorias dos “manézinhos”, evidentemente jobiniana, mas marcada pelo sal da Ilha em cada acorde e transcendendo, sem perder o rumo da estória que conta e nem se sobrepondo num espetáculo narcísico à parte.
A ANTROPÓLOGA é, sem dúvida, um belo filme que interessa a todo tipo de público e que, principalmente marca em definitivo a maturidade de um autor de cinema.
Luiz Carlos Lacerda, cineasta.

Sobre antropologaofilme

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