A Antropóloga: uma iniciação ao místico

Maria de Lourdes Borges (Filósofa) Secretária de Cultura e Arte da UFSC

Hegel afirmava que arte e filosofia eram parte do espírito absoluto, da reflexão sobre o que acontecia no mundo. A filosofia, contudo, seria superior à arte, pois esta apreende o mundo através da sensibilidade, aquela através dos conceitos. Mas Hegel não conhecia o cinema, se o conhecesse, talvez pudesse ver como aí sensibilidade e conceito estão entrelaçados.  Esta imbricação de conceito e sensibilidade pode ser vista no filme de Zeca Pires, A Antropóloga, com estréia prevista em 2010 e cuja versão quase acabada eu tive o privilégio de assistir.
A Antropóloga é uma lírica homenagem à beleza da Ilha de Santa Catarina. Zeca Pires tem o dom da sensibilidade e a capacidade que os impressionistas possuíam para trabalhar a luz. Assim como Monet conseguiu mostrar a luz nos vários momentos do dia com sua catedral de Rouen, Zeca o faz com a nossa ilha. Com suas cores insaturadas, ele se afasta do clichê sobre Florianópolis, das praias badaladas, sol escaldante e mulheres de biquíni, mostrando uma outra paisagem: dos pescadores, das bruxas, da lua cheia, dos lobisomens. Dos sonhos e pesadelos. Daquilo que escapa à razão.
O longa catarinense, não é uma mera mostra, ainda que bela, dos lugares pitorescos e dos costumes da ilha. A Antropóloga explora o limite entre e medicina e o curandeirismo, entre a razão e a crença. As ervas podem realmente curar? Qual a diferença entre dizer que a personagem Carolina tem um câncer ou é vitima de embruxamento? Não seriam meras denominações alternativas para formas malignas da natureza, que podem trazer a morte e a destruição do que é vivo? A magia, certamente, é irracional, mas seria a medicina uma ciência exata?
O filme de Zeca Pires nos faz lembrar o bebê de Rosemary e o próprio cineasta admite ter sido inspirado pelo filme de Polansky. Como este, A Antropóloga apresenta duas explicações para os mesmos fatos, uma científica e outra sobrenatural. A doença da personagem Carolina pode tanto ser explicada por um câncer no cérebro, quanto pelo embruxamento, assim como a situação de Rosemary admitia duas versões: a científica, na qual ela estaria tendo uma crise emocional durante a gravidez; a sobrenatural, na qual ela realmente esperava um filho do diabo.
Polansky, ao falar sobre o bebê de Rosemary, surpreendentemente afirma que acreditava mais na microbiologia do que no sobrenatural: ”não creio em demonologias…sou muito mais apaixonado por microbiologia do que por bruxaria..”, “sou puramente materialista, sempre encontro uma explicação científica para tudo o que acontece comigo”.[1] Esta sua descrença no mistério, por certo, foi o motivo de ter conduzido a obra de forma a manter a ambigüidade até o final. O filho do diabo jamais aprece e o mal pode ser apenas um delírio psicótico.
Já Zeca Pires mantém sua obra na ambigüidade até um certo momento, terminando por admitir o sobrenatural. Dele, não se poderia dizer que acredita mais na microbiologia, ou na medicina, ou mesmo que encontraria uma explicação científica para tudo. Ele adentra o mundo do inexplicável racionalmente e o aceita assim, não tentando explica-lo. Esta aceitação do mistério me faz lembrar a proposição 6.44 do Tractatus lógico Philosophicus de Wittgenstein:  Nicht wie die Welt ist, ist das Mystische, sondern daß sie ist (O Místico não é como o mundo é, mas que ele é).O místico não se explica, ele se mostra.
Aceitar o mistério do mundo, sem perguntar como ou porquê, não implica aceitar o mal na sua figura radical, contrariamente ao filme de Polansky. As bruxas não encarnam o diabólico, elas não são o negativo, o mal por oposição ao bem, como o diabo o é por oposição a Deus. Elas evitam a dicotomia da nossa herança cristã. São feiticeiras, mas também curandeiras, retratando o mundo antes da separação entre o bem e o mal.
A Antropóloga é uma viagem ao mundo antes da separação entre bem e mal. Zeca Pires, com sua alma lírica e sombria nos guia por uma Florianópolis desconhecida. Para mim, que vim de outras paragens, e dessa ilha – ou talvez do mundo?- nunca vi senão o exterior, A Antropóloga foi uma iniciação.
Sobre o que não se pode falar, deve-se filmar.
Maria de Lourdes Borges (Filósofa)
Secretária de Cultura e Arte da UFSC

[1] Citado em Cabrera, J, O cinema pensa (Rio de Janeiro: Rocco, 1999), pp.94,95.

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