Protagonista do filme de Zeca Pires em cartaz na Capital (pela 5ta. semana) atravessa o Atlântico para viajar no tempo

Protagonista do filmede Zeca Pires emcartaz na Capital (pela 5ta. semana) atravessa o Atlântico para viajar no tempo

foto: Lúcio Flávio

foto: Lúcio Flávio

Poderia começar este artigo adjetivando o roteiro, imagens, arte, montagem, elenco e o cuidado técnico de A Antropóloga, filme com êxito de público e positivas avaliações da crítica especializada e da imprensa, o que é confirmado pelo fato de o longa entrar em sua quinta semana de exibição em Florianópolis, com cerca de 5,5 mil espectadores contabilizados nesses período.
Poderia ficar enaltecendo as qualidades de seu diretor Zeca Nunes Pires e sua alma sensível, dizendo que tudo está na sua herança genética e cultural. Afinal, “o nosso” cineasta, ilhéu de cá, tem seus antepassados oriundos do Faial e Terceira, ilhas da margem de lá. É filho do ilustre professor Aníbal Nunes Pires, sobrinho-neto dos escritores Eduardo e Horácio Nunes Pires e neto de Feliciano Nunes Pires, escritor, autor da letra do Hino de Santa Catarina.
Claro está que sua biografia vai além da sua história familiar. José Henrique Nunes Pires, o Zeca Pires, é um dos profissionais com produção cinematográfica mais significativa e respeitada de Santa Catarina. Um percurso de conquistas profissionais e de muitas lutas que, de forma inconteste, faz do cineasta e professor um homem de cultura. Um ilhéu atento ao seu universo e ao mundo circundante, um observador reflexivo do tecido social, em constante diálogo com memórias suas e de sua gente. Riquezas de um cotidiano insular captadas com a acuidade do seu olhar e cuidadosamente espelhadas.
O enredo do longa A Antropóloga constitui um esmerado registro documental deste mundo circundante em que o olhar do diretor se debruça com extrema sutileza na construção de um filme em que os limites entre a realidade e a ficção são deliciosamente tênues e os valores e crenças telúricas dos ilhéus profundamente respeitados. Talvez aí resida o fato de ser um filme onde a beleza paisagística está fortemente entrelaçada no imaginário insular e nos mistérios anímicos, numa sintonia surpreendente entre os dois universos.
O amuleto, uma miniatura do Monumento aos Baleeiros da Vila das Lajes do Pico, que a antropóloga Malu (a atriz Larissa Bracher, que está ótima no seu papel e no sotaque açoriano aprendido com a terceirense Adélia Ormonde) leva consigo, representa o portal entre o real e o irreal. Elo percebido na cena do confronto final entre ela e a bruxa para salvar da morte ou do “empresamento bruxólico” a menina Carolina. Uma ambiguidade presente e ricamente construída em todo filme.
Também não é menos verdadeiro que o próprio filme descortina janelas para o mundo, mostrando as tradições de gente que carrega a Ilha dentro de si, que deixa transparecer no olhar a comunhão do seu chão com o mar e com a sua Lagoa da Conceição. Este é o sentimento que perpassou ao se observar as diferentes reações e comentários de pessoas que assistiram ao filme desde a sua estreia, no dia 29 de abril. Surpresas e surpreendidas com o enredo tão caseiro, elas reconhecem mundivivências pessoais na plenitude da memória coletiva, na cumplicidade de costumes e crenças que fazem parte desse imaginário ilhéu e que são retratados com simplicidade nos muitos excertos de depoimentos dos moradores antigos da Costa da Lagoa. Palavras ditas com a sabedoria de quem conhece o movimento das marés, o sussurrar tinhoso do vento sul e a humildade de quem nasceu perto do mar.
O segundo longa-metragem de Zeca Pires é construído em torno de uma jornada de transformação. O ponto de partida é a viagem da antropóloga desde a Ilha do Pico, no Arquipélago dos Açores, até o Sul do Brasil, com a finalidade de realizar uma investigação científica sobre etnobotânica, que utiliza e valoriza o conhecimento tradicional dos povos, possibilitando entender suas culturas, bem como a utilização prática na cura de doenças. Sua pesquisa de campo se desenvolve na comunidade tradicional da Costa da Lagoa, situada ao leste da Ilha de Santa Catarina, e que por muitas décadas manteve-se isolada do resto da cidade. Tão distante de tudo que bem poderia ser chamada de “terra dos esquecidos”, como nos Açores denominavam o Sul do Brasil para onde partiram tantos casais açorianos no século 18.
Desde as primeiras cenas em que a história-enredo se apresenta estabelece-se uma ponte entre as duas margens – o cá e o lá – como força de referência da história cultural comum. Imagens impressionantes da explosão do vulcão dos Capelinhos na Ilha do Faial e a beleza majestosa do Pico, a ilha negra e misteriosa no seu reinado absoluto. Imagens de freguesias bucólicas como a Vila das Lajes, ponto de partida, e da Costa da Lagoa, essa ponto de chegada, um lugar mítico, depositário tanto da historicidade insular quanto do imaginário ilhéu, com seus mistérios, encantos, bruxas, feiticeiras, boitatás, fogo-fátuo, mula sem cabeça, lobisomens, benzedeiras e suas rezas. O que remete ao fabulário açoriano, componente do patrimônio simbólico, povoado por mitos e lendas, engenharias imaginárias, transmitidos ao longo tempo, reproduzidos e perpetuados pela oralidade tradicional.
Mas, nem por isso, o filme descamba em exageros folclóricos, até porque não é folclore. É um filme assentado nos elementos míticos da cultura popular, componente do patrimônio cultural imaterial da Ilha de Santa Catarina.
A presença da obra de Franklin Cascaes serve como o fio condutor para tecer a trama de suspenses e mistérios. Envolve a antropóloga em suas descobertas empíricas e no desvendamento do desconhecido, do que não se explica, e que desafia o limite do entendimento sobre a razão e a imaginação. Como na cena em que o barco do pescador Pedro voa no céu da meia-noite, iluminado pela enorme lua cheia, fazendo o espectador alçar voos nas asas da imaginação com picárdia, lembrando a lenda do pescador Tibúrcio, que viveu na comunidade e teve sua baleeira roubada pelas bruxas, numa referência explícita ao fantástico de Cascaes. Sabemos que Cascaes escreveu, desenhou, montou em argilas cenas e esculturas de tudo quando viu e ouviu em suas andanças pela Ilha.
Da mesma forma, não causa espanto a forte presença da figura da “benzedeira” Dona Ritinha, personificada com muita naturalidade por Sandra Ouriques. Dona do conhecimento ancestral da cura pela reza, ervas, chás e “brebes” ela representa o ponto de encontro entre os saberes e fazeres tradicionais e o saber científico que norteia o projeto de investigação da pesquisadora açoriana Malu. Pois é na partilha desses saberes e na descoberta dessa cultura mítica que se encontra o ápice da jornada de transformação, a tônica central do filme, que foi urdido pelas roteiristas Tânia Lamarca e Sandra Nebelungm com base no argumento do escritor Tabajara Ruas.
A menina Carolina, curada de seus males, sapateia no trapiche. Olha um barco que parte dançando ao sabor das ondas da Lagoa da Conceição bolinadas pelo vento sul. Na embarcação vai Malu com emoções à deriva, entre lágrimas, transformada. É uma partida? Não, um regresso, uma esperança. Tudo se fecha, suavemente, como uma mandala, o círculo mágico, a energia em movimento. Um belo final para A Antropóloga.
Por último, cabe lembrar o esforço coletivo de todos para a realização do projeto deste longa-metragem, os apoios institucionais e patrocinadores que o tornaram possível em Santa Catarina, na margem de cá do Atlântico; na margem de lá, nos Açores, muitas foram as mãos estendidas, desde a cessão de imagens por Lurdes Bettencourt Oliveira até a cooperação cultural institucional do governo regional dos Açores, Direção Regional das Comunidades e da RTP Açores/ Rádio e Televisão de Portugal.

LÉLIA PEREIRA DA SILVA NUNES – Professora e pesquisadora

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